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Falando em Marinas

 

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Cláudio Brasil do Amaral* Artigo publicado na Revista Mar & Mar – Coluna “Falando em Marinas” Edição 66

 O Brasil é um imenso mercado para quem está de olho no segmento das marinas, que faz parte da cadeia produtiva da indústria náutica.   


            




Muitas matérias de jornais e revistas, quando descrevem o litoral brasileiro, costumam citar que o país é abençoado pelos deuses, com praias, enseadas, baías e ilhas paradisíacas, num clima tropical sem furacões, tsunamis, tempestades, etc.


Para quem visualiza tais cenários da terra para o mar, capta uma idéia restrita da imensidão que é o oceano. Para quem estiver a bordo de um veleiro, navegando ao longo da costa brasileira, a idéia é o inverso, de uma amplitude cênica infinitamente maior.


E a imensidão desta costa navegável e articulada equivale a distancias como de Búzios a Cape Town, na África do Sul, ou de Recife a Lisboa, ambas as comparações em torno de 3.200 milhas náuticas ou aproximadamente 6.000 km. O nosso litoral é três vezes mais comprido do que a costa da Flórida, nos Estados Unidos, considerando-se o litoral leste (de Jacksonville a Key West) e o litoral oeste daquele mesmo estado (Golfo do México). Também supera o comprimento de toda a costa oeste, de S.Diego na Califórnia até a divisa do estado do Oregon, com o Canadá, quase em Vancouver. Lá são “apenas” 1.000 milhas náuticas. Sem falar em outros litorais como a França mediterrânea (262 milhas náuticas), a Catalunya (193 milhas náuticas).


 Porém, com todo este gigantismo, o Brasil carece tremendamente de escalas náuticas organizadas, para a navegação de recreio, que atenda aos navegantes locais e do exterior.


Só na Flórida,três vezes menor em distancia litorânea que tem o Brasil, já foram construídas e se encontram em plena operação mais de 2.000 marinas. É a maior concentração de marinas do mundo. Na costa da Catalunya, com apenas 193 milhas náuticas, existem cerca de 60 marinas de grande porte. Numa comparação grosseira, poder-se-ia afirmar que na Catalunya, a cada 3.4 milhas de distancia o navegante encontra uma marina organizada, com todos os tipos de serviços receptivos e um sistema viário planejado, com acessos a vias expressas modernas que permitem uma logística de trânsito integrada. É um convite ao turismo organizado e a irradiação de qualidade urbana se inicia justamente pela implantação de uma marina no waterfront.


Obviamente a quantidade de barcos é proporcional a tantas facilidades de apoio oferecidas. Se as marinas surgem, os barcos “vêm a reboque”, como se fala na gíria.


Estas iniciativas são fruto de maturação em conjunto, força empresarial e apoio governamental, o que resulta em benefícios sociais e econômicos para a região litorânea. Disponibiliza uma rede de escalas náuticas confiáveis, especializadas no bom atendimento aos clientes embarcados, assegurando escalas mais próximas uma das outras, estimulando o “boater” a se deslocar continuamente pelo país, deixando seu barco nesta ou naquela marina, no final de um trecho navegado.


 No Brasil do futuro nós ainda não temos essa rede de escalas náuticas, tornando uma viajem de barco uma verdadeira aventura, com riscos bastante expressivos, de patrimônio e de ordem pessoal.


 Simulando uma navegação costeira do norte do país (divisa com a Guiana Francesa / Pará) até o sul (porto de Rio Grande, no extremo sul da costa gaúcha) percorreríamos 3.200 milhas náuticas e teríamos uma média de 20 escalas náuticas, apenas. E isto considerando navegação costeira, entrando e saindo em algumas baías, etc. Os trechos mais críticos, sem escalas, seriam: Vitória a Búzios, 190 m/n, Fortaleza a Natal, 259 m/n, Santos a Paranaguá, 162 m/n, e Laguna a Rio Grande, 300 m/n e o mais perigoso de todos.


 Considerando que um veleiro desenvolve em média seis milhas náuticas por hora, e uma lancha de médio porte mantém velocidade de cruzeiro nos 25 a 30 nós, façamos os cálculos. É muito mar pela frente e seja o que Deus quiser.


Se tudo der certo, a brincadeira vale à pena. Mas nem sempre é assim tão fácil, pois o clima pode mudar de humor ou poderá haver falhas em equipamentos, entre outras ocorrências a bordo. Aí vira uma história seguida por desapontamento daqueles que um dia sonharam em navegar com segurança.

 No segmento marinas o Brasil dispõe apenas 34 unidades (sem contar garagens náuticas e iates-clubes) e 65% estão concentradas principalmente em Angra dos Reis, e no litoral de S.Paulo.


Em razão destas distâncias continentais, ainda há muito a ser feito neste país gigante, porém adormecido para a as oportunidades de desenvolvimento náutico pleno, o que tem ocorrido em Cuba, na Croácia e na Romênia, enfim, países muito mais atrasados que dão valor ao potencial que o mar oferece, abrindo suas fronteiras aos turistas embarcados e implantando – prioritariamente, como programa governamental - marinas de primeiro mundo.

 

* Planejador de Waterfront / sócio-diretor da Marinas do Brasil Consultoria & Associados / presidente do Instituto de Marinas do Brasil / Membro do IMG – ICOMIA MARINAS GROUP

 

 

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